sábado, 27 de abril de 2013

O tempo da manga

Ruth Guimarães 

Há o tempo de rir e o tempo de chorar. O tempo de amar e o tempo de morrer. O de calar e o de falar. Houve o tempo em que Jesus falava aos seus discípulos e o tempo em que os animais falavam. 

E aquele tempo inolvidável de criança em que recitávamos em bando, aos gritos: tempo será, é de mim será...” Na minha terra há o tempo da manga. Ah! Tempo!... 

É em novembro-dezembro, dos calores fortes e dos aguaceiros, e das enchentes na várzea, renteando o Paraíba. Desta vez não houve enchente, por causa da seca, no início da primavera, embora chovesse de vez em quando e a água fosse rolando barrenta, galharia, ingá, ninhos de corruíra, cobras viajoras, viandantes. De costas escuras, coleando na superfície grossa: urutu, mudando de pouso, com a enxurrada. Ainda é primavera nas pescarias com a peneira, nas lagoas de um dia que o sol esquenta e a terra chupa. Lá ficam rabeando as traíras de costas rajadas e de barriga amarela, meio parentas de cobra. É em dezembro. É agora. 

Cada manga deste tamanho, no galho, pencas enormes puxando para baixo as pontas dos ramos. Tem ano que é preciso colocar escoras. Não neste ano. A floração começou regularmente lá para fins de junho, safra temporona dado o calorão que fez, inconcebivelmente, nos finais do mês. Quando assustamos, o mangueirão mais velho, que há muito festejou os cem anos, já estava de toucado amarelo-ouro, todos os galhos com lampejos de sol. As flores cambiaram para a cor de ferrugem e foram atiradas ao chão pelo vento, formando tapete, desenhos, alfombra, tão bonito! Chão de pétalas. Os frutos apareceram devagar. A gente nem via. Dava por eles já grandinhos, naquele formato estranho, feito feijão verde, gigante. Os entendidos olhavam para o ar, a copa da mangueira era um mundão escuro, sem nuanças. Sobre o silêncio e naquela escureza, uma vida inchante, prometendo. “Vai dar muita manga. Carregou. É. Carregou... Depende do vento. Depende. Temporona, é para o comecinho do mês. 

Ninguém contava com o sol. Minto. Todo o mundo contava sim com o sol era para amarelar bem o fruto, depois que as águas o fizessem engordar. Era para dar-lhe aquele toque precioso de doçura singular no caldo. Era para tingir o amarelo da casca com pinceladas douradas, sol pintor. Veio agosto, sem vento. Nada dos comentários costumeiros de ter morrido um padre, nem de andar o diabo à solta, nem de virar o saci no rodamoinho, pois a chuva não veio. Não veio a chuva. No seu lugar, um sol de rachar, estorricante, sol de deserto, sol de nordeste, sol de inferno. Apagava-se o olho vermelho do sol, acendia-se o olho vermelho da lua, à tardinha, prenunciando seca. Veio setembro e não veio a chuva. Não veio a chuva em setembro. As mangas mais taludas amarelavam defuntas e no primeiro ventinho caíam. Também não veio a chuva em outubro, quando o milho da Senhora Santana estava apenas apendoando. Foi pouca a chuva em Finados. E o dia de Santa Luzia passou sem chuva. 

Mas, nas mangas que sobraram de tanta calamidade, que messe! que tamanho! que frutos! ai que rica doçura, meu senhor! Dourado fruto, melado, favo e néctar, mais que mel. Mais que mel para as grandes moscas de ouro e esmeralda, de asas de névoas de cristal, a bela-horrível varejeira. Mel para as abelhas zumbidoras, de penugens douradas. Mel para a criançada que se empoleira nos galhos. Mel para as galinhas e as cabras, minha nossa! 

Fruteira generosa, a mangueira. Não vê que manga pára no galho, depois de madura! Qualquer vai-vem da aragem mais leve, a manga chovendo, cada manga deste tamanho, que forra o chão. 

Diz-se que manga faz mal com pinga. Pinguço larga de chupar manga ? Diz-se que faz mal com leite. Criança larga da mamadeira? Diz-se que fruta da fertilidade. Quem faz dessas estações-de-maga tem filho todo ano. Quem é que vai deixar de chupar manga? 

O tempo é dezembro. É agora. É o tempo. Ah! tempo!

Botelho Netto
Foto de Botelho Netto

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