domingo, 28 de abril de 2013

Lembranças

Ruth Guimarães 

Botelho Netto
Foto de Botelho Netto
O trem voou pelo vale verde-gaio dos arrozais, engolindo trilho. Na entrada da cidade, toda negra, o som do bem-bão, anunciou que o expresso vinha: beeem-bão! A estação com três torreões, pétrea, bruta, compacta, cresceu, cresceu e parou. Shiiiiu! que o trem de ferro fez, para ninguém falar. 

Encontrei de novo as velhas árvores, as mangueiras da Sinhá-Bolão, o abacateiro, a paineira, que não estava florida, pois não era abril, e encontrei de novo o velho Paraíba, e o canto das lavadeiras, junto à cantiga das águas, escachoando nas pedras do velho porto daquela que já foi Santo Antonio de Cachoeira. 

Súbitos riscos de prata fulguram acima do espelho do rio. É o sol brincando nos anzóis, ou estarão pescando relâmpagos? 

Cheiro de folhas machucadas e de capim-angola pisado ressuscitaram não sei como. Espalhou-se no ar, sem mudança, o cheiro adocicado de mangueiro (leite, estrume fresco e fecundidade). 

As amadas lembranças vibraram na paisagem com o seu modo de ser ingênuo e corriqueiro: sobre as cercas de bambu, a seda das campânulas roxas e amarelas. Nos muros o veludo dos musgos. No campinho a aspereza da palha de arroz. Tudo igualzinho. E eu, onde estarei? 

Dona Mariquinha, costureira, saiu ao portão, pra ver o trem passar. E o muro que era tão alto, tão lá em cima, para cima da minha cabeça um tanto assim, tocando as nuvens, ficou baixinho. Não tapa mais a vista do quintal de d. Florinda (ah! o quintal de dona Florinda, com tanta fruta melando, tanta doçura, tanta abelha zumbindo, tanta criança!) 

Abelhas enxamearam na máquina preta e verde do garapeiro. Tudo igualzinho. Rescendeu no ar o cheiro de içá torrado com farinha. É outubro. Içá anda tonta no ar, pedindo para ser caçada. Moleque de voz fininha vendeu piiiiiiiiii-irolito! outra vez. O sol passou por cima da ponte, incendiou o céu e bem nessa hora o Paraíba também pegou fogo. Como antes. 

Na verdade regressei, na verdade revi todas as coisas. Mas não recuperei nenhuma. Estão nos longes, surpreendidas, de relance, no fundo dos olhos que me contemplam, num riso inesperado que leva por um momento à infância, num gesto que mal se esboçou, no andar de um que passa, não é o Marçal? mas como envelheceu! 

E vejo que não há regresso. Que nunca mais que me encontrei. Que nunca mais me encontrarei. 

Como é que não gosto mais de pirulito, tão docinho! e nem do quintal proibido com seu alto muro ? Nem paro sequer para contemplar num enlevo a lagartixa rajada de rabo cortado que ziguezagueou parede acima. 

O que ainda é já se perdeu. 

Ninguém tirou não, que eu vi, as cercas de bambu dos fundos dos quintais. E na palha de arroz ninguém mexeu. Ninguém mudou de casa, ninguém envelheceu, ninguém morreu, ninguém faltou. Só eu.

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