quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Vamos apenas refrescar a memória da desmemoriada Cultura Nacional...

 por Oswaldo Faustino



Ruth Guimarães: o centenário da escritora pioneira que colocou a identidade negra no centro de sua obra

Edison Veiga
De Bled (Eslovênia) para a BBC News Brasil

Literatura caipira e negra. Para a escritora Ruth Guimarães (1920-2014), a definição era orgulhosamente assumida. 

Em 2007, em depoimento concedido ao Museu Afro Brasil, ela afirmou que, "assim como somos um povo mestiço, todo cheio de misturas de todo jeito, a nossa literatura também é toda feita de pedaços de textos, de arrumações aqui e ali". 

"Não há nada que nos torne inteiriços, inteiros", definiu. 

"Minha literatura é isso também. Eu conto a história da roça, de gente da roça, do caipira. Eu também sou caipira, modéstia à parte. Eu não me importei muito se havia uma tendência, ou se havia uma inclinação para contar a história do preto; como eu também sou misturada, o meu livro é misturado. Como eu sou brasileira, nesse sentido de brasileiro todo um pouco para lá, um pouco para cá, o meu livro também é assim, um pouco para lá, um pouco para cá." 

E prosseguiu enfatizando que era preciso "saber da raiz negra de onde viemos". 

Reconhecida como a primeira escritora brasileira mulher negra a ter projeção nacional, deixou claro que o legado é para ser usufruído pelas geração que a sucederam e sucedem. "A história negra está por fazer, a literatura negra está por fazer, a poesia está por fazer", disse. 

No ano em que é celebrado o centenário de seu nascimento, a obra de Guimarães — que publicou 51 livros entre romances, contos, crônicas, traduções e ensaios folclóricos — é resgatada. 

Nesta quinta (19/11), a FlinkSampa: Festa do Conhecimento, Literatura e Cultura Negra lançou uma edição comemorativa aos 70 anos do livro Os Filhos do Medo. 

A escritora é a grande homenageada na edição deste ano do evento — que será on-line por conta da pandemia. Em 2020 foram publicados ainda dois livros inéditos da autora, Contos Negros e Contos Índios. E outros dois devem chegar às livrarias no ano que vem — Contos da Terra e do Céu e Contos de Encantamento. 

Pioneirismo 

Mas a grande obra da lavra de Guimarães, o livro que a catapultou para o reconhecimento nacional, foi publicado quando ela era uma jovem de 26 anos. Trata-se de Água Funda, lançado em 1946 e cujo enredo se passa em uma fazenda do sul de Minas Gerais entre a abolição da escravatura e o início do século 20. 

"A trajetória dela é um exemplo a ser seguido no sentido da segurança e autoconfiança no que escrevia e, tendo essa certeza, mostrou sua escrita para quem estava receptivo a novas descobertas na literatura, o quê se pretendia na época: uma escrita focada na identidade nacional, no caso, a identidade negra", avalia à BBC News Brasil a escritora Ana dos Santos, pesquisadora na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). 

"Na minha pesquisa sobre escritoras negras observo que a ousadia, que é uma qualidade que nós mulheres negras temos que ter é o primeiro passo na direção dos nossos sonhos e projetos literários." 

Água Funda rendeu à autora a admiração de literatos como o crítico Antonio Candido (1918-2017) e os escritores Guimarães Rosa (1908-1967) e Jorge Amado (1912-2001). 

Nascida em Cachoeira Paulista, no interior de São Paulo, ela apaixonou-se pela literatura ainda na infância. Aos 10 anos já publicava poemas em jornais de sua cidade. 

Formou-se em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP) e passou a atuar como jornalista — publicou em grandes jornais como O Estado de S. Paulo e Folha de S. Paulo. Também foi tradutora. E, em sua cidade natal, trabalhou como professora. 

Casou-se com um primo, com quem teve nove filhos — oito deles com problemas de saúde, sendo que três portadores de síndrome de Alport, uma doença genética degenerativa. Para o curador da FlinkSampa, o escritor e biógrafo Tom Farias, a questão familiar pesou sobre a própria carreira de Guimarães. 

"Ela escreveu no seu confinamento em Cachoeira Paulista, onde nasceu e morreu, teve nove filhos, ficou viúva… O fato de ela ser uma mulher e ter se dedicado muito mais à família do que à vida literária, acreditamos, fez com que ela não fosse tão valorizada pela academia. Já passou da hora de homenageá-la. Não podíamos deixar esse centenário sem nenhuma manifestação de reconhecimento", diz ele à BBC News Brasil. 

Farias explica que Guimarães é um exemplo daquilo que a FlinkSampa luta para recuperar: uma grande escritora brasileira "que foi, de alguma maneira invisibilizada pela academia e pelo mundo literário" 

"O encantamento de Ruth Guimarães está em ela ter ocupado espaços restritos para pessoas negras da época, como estudar em universidade pública e aprender um novo idioma, a ponto de traduzir obras clássicas e, ainda assim, ter mantido um compromisso com a cultura caipira e popular em seus contos e no seu romance Água Funda", diz à BBC News Brasil a tradutora e militante feminista Natália Chaves, recém-eleita covereadora em mandato coletivo pelo PSOL. 

"Avalio que a junção desses fatores a levou a um patamar ao qual poucas pessoas negras podem chegar, em um país onde o analfabetismo é três vezes maior para pessoas negras do que brancas." 

Também militante feminista, a jornalista Viviane Duarte, fundadora do projeto Plano de Menina, acredita que o resgate da vida e da obra da escritora servem como estímulos para as novas gerações. 

"Ela é uma inspiração para todas nós, mulheres negras. Foi uma mulher que não se intimidou com seu tempo. Ocupou espaços importantes e construiu espaços importantes", comenta. 

"Não estamos falando de meritocracia, mas sim de comprometimento com a paixão, com o talento. Em buscar fazer o talento acontecer independentemente das circunstâncias." 

Questão de gênero, questão de pele 

Para especialistas, tanto a cor quanto o gênero podem ter pesado no esquecimento de Guimarães. 

"O fato de não ser tão amplamente conhecida talvez se deva ao fato do recorte gênero e raça, ainda mais se tratando do universo de São Paulo e Minas Gerais. Quantos anos Conceição Evaristo demorou a ser editada? E quanto tempo demorou para Carolina Maria de Jesus ter a visibilidade e reconhecimento merecidos? E Maria Firmina dos Reis? Maria Firmina foi a primeira romancista negra brasileira", pontua a mestra em literatura Nélida Capela, curadora de acervo da Blooks Livraria e fundadora da plataforma NC Curadorias. 

"As grandes editoras do mercados só investem parcialmente agora em autoras negras. Mas esse trabalho de divulgação da escritoras brasileiras vem sendo realizado há algum tempo pelas editoras independentes e as novas editoras, a exemplo da Pallas, que edita Conceição Evaristo, e da editora Malê, que edita inclusive jovens escritoras e intelectuais negras", acrescenta ela. 

Diversos outros exemplos mostram que o exemplo de Guimarães é seguido. Mas não sem dificuldades. 

"Um dos apagamentos do racismo é o da nossa cultura, então a dedicação de Ruth para resgatar o folclore brasileiro pode servir de grande exemplo pra autoras contemporâneas", lembra a tradutora Chaves. 

"Jarid Arraes é um exemplo de escritora negra que traz com força a cultura popular, principalmente a cultura do cordel. Aline Valek também tem um trabalho interessante; o último livro dela, Cidades Afundam em dias Normais, se situa no Cerrado, por exemplo, um bioma que é bem esquecido no Brasil." 

Ana dos Santos cita pesquisa realizada pela Universidade de Brasília, publicada em 2018, que mostra que há mais de quatro décadas o perfil padrão do escritor brasileiro é o "homem branco, heterossexual, morador do sudeste do Brasil e pertencente às classes média e alta". "O preconceito que ainda existe no mercado editorial brasileiro é um reflexo da sociedade racista, machista e homofóbica", pontua. 

"Nossa intelectualidade está correndo atrás da literatura negro-brasileira, correndo atrás de 300 anos de escravidão que contribuíram para o apagamento, silenciamento e esquecimento de autoras negras como Ruth Guimarães", diz ela. 

Tom Farias frisa que é preciso divulgar o valor da escritora independentemente de sua negritude. "Não gosto dessa classificação em 'caixinhas'", explica. "Quem coloca termos é uma classe que quer continuar dominando o mundo da indústria da literatura, que envolve livros, festas literárias. Isso é confinamento. Não acredito que haja uma linguagem própria dos autores e autoras negros." 

Autor do blog Arte Fora dos Centros e pesquisador de literatura marginalizada na Universidade Livre de Berlim, o jornalista Fred Di Giácomo concorda — e acredita que seja preciso revisar o cânone daqueles livros que são considerados os mais importantes do Brasil. "Existem argumentos técnicos, mas como se forma o cânone? Quem decide quem são os melhores livros geralmente são homens brancos ricos que se identificam e leem homens brancos ricos", comenta ele, à BBC News Brasil. "Estamos em um momento mundial de questionamento do cânone e de redescoberta de vários autores e autoras, negros, indígenas…" 

"Ela está no patamar de uma grande escritora e vai sendo, agora, aos poucos redescoberta. É preciso também que ela esteja nas universidades, na academia. Que esteja nas escolas, nas listas dos vestibulares, nos livros didáticos", pontua Farias. 

"Ruth Guimarães, como escritora, não está abaixo de nenhum outro ou nenhuma outra do período dela. Ela precisa ser olhada com esse respeito." 

Com as comemorações do centenário, há oportunidade para refletir. Prestes a ocupar um espaço no legislativo paulistano, Natália Chaves afirma ser "importante pensarmos em políticas públicas que possibilitem a mais mulheres explorarem seu potencial assim como Ruth pôde fazer". 

"É preciso combater o racismo estrutural, o analfabetismo e a própria ideia de que lugar de mulher é em tarefas domésticas, principalmente quando essa mulher é negra", ressalta. 

Nélida Capela conta que em seu trabalho de curadoria procura sempre pensar na representatividade. 

"Quando digo representatividade, digo literatura e obras de conhecimento de autoras negras, autoras de povos originários e também livros sobre a questão de gênero", afirma. Para ela, a responsabilidade, no entanto, precisa ser compartilhada: por quem edita, por quem organiza os livros na livrar, pelos jornalistas que publicam resenhas e divulgam livros e, claro, pelos leitores que escolhem o que consumir. 

A escritora Ruth Guimarães sempre acreditou na persistência, apesar das dificuldades enfrentadas, do povo negro. 

No mesmo depoimento de 2007 cujo trecho está no início desta reportagem, ela disse que "muita gente já fez esses estudos e até descobriram uma coisa muito bonita, muito gratificante para a gente: que todas aquelas qualidades do povo brasileiro, aquele povo igual, alegre, que aceita, que aguenta os trancos, que passa por tudo quanto é ruindade neste mundo, essa qualidade boa, excelente, que faz de nós um povo único no mundo, nós devemos aos negros". 

"Os negros é que são assim, aguentaram e continuam aguentando; não sei se são muito pacientes. Se for medir por mim, porque o homem é a medida do homem, se for medir por mim, essa qualidade de paciência nós não temos. Eu não tenho paciência. Não sou uma criatura paciente, mas sou uma criatura alegre, graças aos meus ascendentes negros. E agora, depois de muito velha, estou fazendo pesquisa e procurando o rastro do negro na nossa literatura de povo e na nossa alegria de contar histórias", afirmou a escritora. 

Disponível em:
https://www.bbc.com/portuguese/brasil-55024124?fbclid=IwAR27HGCoQYqtu6wCdF0p1-2Cri7XimxLDSEbd1rYvu74doNdKANKIVZeBSM

Contos Negros, belo e necessário

Oswaldo de Camargo*



Esta é a primeira edição de Contos negros, obra de Ruth Guimarães terminada na década de 1980, e que se mantinha inédita por motivos pessoais da escritora. Merece entusiasmada comemoração.

Neste ano em que Ruth faria 100 anos, Contos negros, em nosso país, tem especial significado, que a autora, em 128 páginas, aponta com simplicidade e exemplar erudição.

O livro tem o jeitão negro-caipira de Ruth Guimarães, afeita a recolher e contar “causos”, primos descalços dos contos eruditos, mas, se se observa bem, acrescenta a isso a sua condição pouco falada de poeta, o que amplia o encanto do conteúdo dessas histórias que têm como marca simplicidade e a mais solta imaginação.

Nascida em Cachoeira Paulista, em 1920, ano em que o Brasil inteiro já estava se preparando para os festejos do centenário de sua independência, a circunstância de a data obrigar a reflexões sobre a identidade do País, sobretudo a urgência de, afinal, se “abrasileirar”, aceitando-se como branco, índio, negro, vai determinar o rumo da futura romancista, pesquisadora de cultura popular, folclorista, contista que privilegiaria em seus enredos a presença de gente miúda.

Contos negros, ora publicado pela Faro Editorial, tendo como editor Joaquim Maria Botelho, filho da escritora, é produto do esforço para mostrar o Brasil em sua face de simplicidade e mestiçagem cultural negra, iniciado por Ruth com seu primeiro romance, Água funda, de 1946. Tem-se que, diante desse livro, prestar tributo a Mário de Andrade, “bardo mestiço”, como ele se afirmou em um de seus mais conhecidos poemas, que é “Meditação sobre o Tietê”. Conforme relata José Luiz Pasin em seu folheto Ruth Guimarães – Bio bibliografia, foi Mário de Andrade que “a iniciou nos estudos de folclore e literatura popular”. É questão de justiça assinalar a importância de Mário na trajetória de Ruth. Mário de Andrade, “bardo mestiço”, soprando rumos à afro-caipira Ruth Guimarães.

Vale no caso de Ruth, pelo seu caminho de escritora luminosamente percorrido, esta reflexão do pensador e teólogo católico Romano Guardini: “O que um homem é pelo seu nascimento determina o tema de sua vida: tudo o mais só depois se acrescenta. O meio envolvente e os acontecimentos exteriores decerto exercem uma influência, transportam e pesam, comandam e destroem, agem e formam, mas o elemento decisivo permanece este primeiro passo para o ser – aquilo que se é pelo nascimento (...)”, passagem encontrável no livro O Senhor, traduzido do alemão pelo filósofo brasileiro Fernando Gil.

É da terra caipira que vem Ruth Guimarães. É uma afro-caipira.

No texto “Dois dedos de prosa”, que antecede os contos, Ruth fala da intenção deste livro: “Disseram-me que eu devia explicar, rapidamente, num bate-papo ameno, o critério de seleção destes contos. Em primeiro lugar, não houve preocupação sentimental, nem pedagógica. Aliás, o primeiro contato, completamente irracional, com a matéria, foi ajustar o material, recolhendo-o despreocupada na fonte, isto é, entre o ‘povo‘”. (p. 7).

Então, lembrando Guardini: “O que se é pelo nascimento...”

Ruth Guimarães é limpidamente povo, a despeito de toda a erudição que adquiriu com sua formação universitária e as circunstâncias do meio culto em que viveu.

São sintomáticas suas várias traduções de romances e contos, notando-se preferência por Dostoievski, um romancista que se voltou sobretudo para personagens que carregavam atavicamente a miserabilidade do povo russo, sob a opressão dos poderosos daquele tempo. Traduzindo, pode-se supor que nesse mister ela via a semelhança com o mundo de gente miúda, aqui existente, foco principal de sua produção de escritora.

Em 1980, década em que reuniu o material para o que é hoje este livro, Ruth Guimarães tinha 60 anos, sendo dona de uma bagagem admirável na área da etnografia e do folclore.

Dessa bagagem sai Contos negros, que pode ser visto como um minicurso sobre mestiçagem cultural; sobre o que é o Brasil, que, com sua mistura racial (hoje 54% negro, somando-se gente preta ou mesclada), comporta, sem muitas vezes perceber, um país mestiço também de alma, o que aponta o absurdo da presença, ainda, do racismo em nosso meio.

Um minicurso com a prosa gostosa de Ruth, que espalha sobre o negro observações que só poderiam provir dela: “O Vale é todo tisnado das características rústicas da raça: rostos grandes, pele trigueira, curtida, grossa, lisa; lábios carnudos e sorrisos largos, de orelha a orelha; olhos grandes, parados , lustrosos, parecendo líquidos; narizes volumosos; cabelos escuros, ásperos, que se vão desenovelando na mestiçagem com o branco (...).

Repetindo: livro com o jeitão de Ruth. Delicia-se com ele, aprende-se com ele muito sobre coisas jamais pensadas na relação do negro com o mundo e suas histórias por aí desde muito tempo espalhadas.

Uma curta aula, sem pretensões de se mostrar mestra, mas da qual escapa, para felicidade do leitor, muito do que Ruth leu, pesquisou, observou a respeito da “mestiçagem” encontrável em uma série de contos que correm de boca em boca sobretudo em casas modestas do interior, sem se supor que se está antenado com os irmãos Grimmm, Perrault, As mil e uma noites, o Corão.

Nele, Ruth adverte ao leitor distraído que não se deixe enganar: ogros, gigantes e o conhecido episódio do gênio da lâmpada, a própria mitologia grega, possivelmente via islâmica, fazem incursões no populário afro. Quem já apontou isso na cultura negra no Brasil?

Ler Contos negros é entrar em um imaginário que, sem este minicurso de Ruth, que vai da página 7 à 17, espraiando-se com notas após várias histórias, seria quase impossível descobri-lo como de face mestiça.

Assim, em “A mãe de ouro” (p. 19-21), com seu final cruento, no qual “um barulho estrondou na floresta, desabaram as paredes do buraco, o patrão e os escravos foram soterrados e morreram”. Assim em “O gigante” (p. 23-28), cuja compreensão é ampliada com uma bem erudita nota, enriquecedora para a apreciação do conto. Assim em Pacuera-cuera! (p. 31-35), em que se ostenta belamente a linguagem popular colorida por Ruth. Exemplo, pego a esmo: “A noite caminhou com pés de lã e silêncio, até bem tarde. Vizinhava a meia-noite e, então, um urro pavoroso se ouviu do fundo do mato. Os dois irmãos acordaram aterrorizados.” (p. 53).

Acrescente-se, merecedora de especial atenção, a seção ”Cosmogonia Afro- Brasileira – Contos de explicar o mundo e a vida”, que segue da página 51 à 63, em que se torna impossível apontar qual o conto de menor interesse: “O Senhor do mundo” (p. 51-55), “A sombra do outro” (p. 57-59), “O lagarto intrometido” (p. 61-63).

Contos negros ilumina, com luz forte, a riqueza que é a mestiçagem cultural viva no ambiente de muita gente miúda – branca, índia, negra –, a cara mais autêntica e desprezada de nosso país.

(In: Quatro cinco um – A revista dos livros, n. 39, nov. 2020)

Referência

GUIMARÃES, Ruth. Contos negros. São Paulo: Faro Editorial, 2020.

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* Oswaldo de Camargo é jornalista e escritor. Dentre suas publicações destacam-se: O negro escrito (crítica, 1987); A descoberta do frio (novela, 2011); Oboé, (novela, 2014); O carro do êxito (contos, 2016); Luz & breu: antologia poética 1958-2017 (2018); e Negro disfarce (novela, 2020).

LITERAFRO

Nossa autora, Ruth Guimarães, em destaque na Retrospectiva 2020 do Literafro, O Maior Portal da literatura afro-brasileira:


"Ano atípico, para dizer o mínimo, 2020 chega ao fim marcado por dois acontecimentos que vão entrar para a História: a pandemia e o despertar antirracista impulsionado mundo afora pela campanha “Vidas negras importam”. No entanto, um terceiro fenômeno nos chama a atenção – a vigorosa produção literária afro-brasileira. São tantos os livros – novos ou reedições – que nossa newsletter teve que dobrar de tamanho e publicar dez resenhas, ao contrário da média histórica de cinco lançamentos apresentados. Eis a lista: Luiz Gama, Ruth Guimarães, Oswaldo de Camargo, Geni Guimarães, Paulo Colina, Miriam Alves, Mário Medeiros, Elizandra Souza, Ronald Augusto e Éle Semog. Todos recebem apresentações comentadas por pesquisadores e especialistas. Apesar disso, vários estão ausentes... e você que nos lê deve lembrar: Edimilson de Almeida Pereira (com dois romances!); Cuti (com um livro de poemas, outro de contos!); Fausto Antônio, Abelardo Rodrigues, e outros mais, que estarão conosco no número 42, programado para março. Boas “férias” e, mais do que nunca, boas leituras!"





Disponível em: http://www.letras.ufmg.br/literafro/newsletter/1431-literafro-novidades-n-41-edicao-especial-dezembro-de-2020?fbclid=IwAR3ER8tb_OXhUl77lj1-G--FBCZoPb1ezkdbo4v6DlfA54sVfhRJnmIAITs


Ruth Guimarães, por Maurício de Sousa

Em 2007, a personagem Mônica da Turma da Mônica se tornou embaixadora do Unicef no Brasil, com o intuito de defender os direitos das crianças e dos adolescentes em todo o território nacional. 
Anos mais tarde, em 2016, a Mauricio de Sousa Produções foi signatária da carta de Princípios de Empoderamento das Mulheres, uma iniciativa da ONU Mulheres e do Pacto Global que orienta os setores público e privado na promoção da Igualdade de Gênero.

Em decorrência dessas ações, a MSP acaba de lançar o projeto #DonasDaRua, uma iniciativa que enaltece as personagens femininas da Turma, ao mesmo tempo em que divulga os feitos e conquistas de mulheres notáveis da ciência, das artes e do esporte, no Brasil e no mundo. 


Separei para vocês verem quatro delas: Maria Firmina dos Reis, Ruth Guimarães, Carolina Maria de Jesus e Lélia Gonzales.

Além de ser um interessante recurso político, o site criado para abrigar o projeto também é um ótimo recurso pedagógico, uma vez que apresenta cada uma das personalidades elencadas a partir de um verbete biográfico, bem como pôsteres muito bem feitinhos de cada uma das mulheres presentes no projeto.

Os Filhos do Medo

Edição comemorativa dos 70 anos de lançamento do livro "Os filhos do medo", publicado pela Editora da Universidade Zumbi dos Palmares. 
Integra a celebração do centenário de Ruth Guimarães e será lançado oficialmente durante o tele-papo que teremos, eu e Conceição Evaristo, nesta quinta-feira, dia 19 de novembro de 2020, às 16h10. 



 

Ilusão


Não oponhas ao meu grito

O desdém dos astros impassíveis,

Nem a linguagem das constelações

Não entendo o que escreveste com as estrelas

De braços abertos, na cruz dos quatro caminhos,

Eu também sou uma cruz,

Traçada no chão duro com carvão

(Como se fosse a Tua sombra,

A sombra do Teu Cruzeiro,

Estendida no chão...)

Esse gesto de abrir os braços

Para uma ilusão,

Para o infinito, para o amor,

- gesto de cruz que é Teu e meu –

Nos aproxima,

Oh! Meu Senhor!

Ruth Guimarães