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sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

A obra de Ruth Guimarães no movimento regionalista brasileiro

O romance “Água Funda” se inscreve no movimento regionalista da chamada geração de 1945, que na realidade foi a terceira geração do modernismo no Brasil.

Didaticamente, a primeira geração é aquela que conhecemos como o grupo da Semana de Arte Moderna de 1922, com Mário de Andrade, Sérgio Milliet, Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, Osório César.

A segunda geração, que vai de 1930 a 1945, foi inaugurado por Rachel de Queiroz (com O Quinze, de 1930) e teve José Lins do Rego (com Menino de Engenho, de 1932), e Graciliano Ramos (com São Bernardo em 1934 e Vidas Secas, em 1938) entre seus principais nomes, na prosa. Na poesia, estão Vinícius de Moraes, Jorge de Lima, Augusto Frederico Schmidt, Murilo Mendes, Carlos Drummond de Andrade, entre outros.

Antes de passar para a terceira geração, à qual pertence Ruth Guimarães, é preciso entender o contexto mundial da época.

O ocidente, mal refeito da Primeira Guerra Mundial, com todas as mudanças geopolíticas que dela resultaram, estava mergulhado em outras desventuras trágicas – a migração maciça e a reconstrução dos países destruídos. Além disso, a queda da Bolsa de Nova York, em 1929, tinha abalado o mundo de tal forma que até as relações políticas estavam contaminadas pela economia. Naquele ano, o presidente brasileiro Washington Luís indicou como seu sucessor o então governador do estado de São Paulo, Júlio Prestes. A oposição era liderada por Getúlio Vargas. Júlio Prestes venceu, mas não levou. Getúlio, com apoio das famílias mais tradicionais e dominantes, liderou o movimento tenentista e assumiu o poder.

A literatura refletiu todas essas perturbações. E abandonou o viés romântico, assumindo um tratamento mais realista nas narrativas. Os escritores passaram a mostrar mais o homem perante sua condição social, enfatizando, sobretudo, a miséria, as favelas, a seca e a luta pela sobrevivência aliada ao descaso dos políticos. Não por acaso, a região nordestina era a mais enfocada – graças, especialmente, ao estonteante sucesso de “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, um trabalho notoriamente pré-modernista.

O decênio de 1930, segundo Antonio Candido, representou uma arrancada do pensamento e da literatura. Comenta o crítico (falecido em maio de 2017) que o romance produzido nesse período se caracteriza pelo neonaturalismo e pela inspiração popular, retratando os dramas peculiares do país, tais como a decadência da aristocracia rural, principalmente dos senhores de engenho, e a consequente formação do proletariado, em José Lins do Rego; a luta do trabalhador, em Jorge Amado; a escravatura do trabalhador rural e o êxodo para as cidades, em José Américo de Almeida e Graciliano Ramos; a vida difícil das cidades em rápida transformação, em Érico Veríssimo.

Destaca-se, nesse período, ao lado da ficção, o ensaio histórico-sociológico. Um de seus maiores representantes é Gilberto Freyre, com Casa-Grande e Senzala, Sobrados e Mucambos, e Nordeste (ainda nas palavras de Antonio Candido), obras nas quais segue as tendências do Modernismo, ao estudar o papel do negro, do índio e do colonizador na formação da sociedade ajustada às condições do meio tropical e da economia latifundiária. Igualmente importantes são Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda e Formação do Brasil Contemporâneo e História Econômica do Brasil, de Caio Prado Júnior.

Com a instauração do Estado Novo ditatorial e antidemocrático, tem-se o ápice do Modernismo ideológico, e uma recrudescência do espiritualismo, estético e ideológico, na análise de Antonio Candido. Portanto, o decênio de 30 apresenta, no Brasil, sobretudo em seus últimos anos, intensa carga espiritualista. Oriundas do Simbolismo, do nacionalismo das pregações católicas de Jackson de Figueiredo, desenvolvem-se diversas tendências ideológicas e estéticas. Como exemplos dessas tendências, pode-se citar o romance introspectivo de Cornélio Pena, Fronteira, e de Lúcio Cardoso, Luz no Subsolo, Mãos Vazias, o romance social de Plínio Salgado, O Esperado, O Cavaleiro de Itararé, o romance dramático, de Octavio de Faria, Mundos Mortos, Caminhos da Vida. Na poesia, destacam-se Augusto Frederico Schmidt, de tendência neo-romântica, e Jorge de Lima e Murilo Mendes, de tendência católica. “O decênio de 30 nos aparece agora como um momento de equilíbrio entre a pesquisa local e as aspirações cosmopolitas, já novamente dissociadas em nossos dias de sectarismo estreito acotovelando-se com o formalismo”, esclarece Candido.

Como sabemos, a arte literária camufla, por meio da linguagem, toda uma ideologia, seja ela social, histórica ou cultural.

Foi em meio a esse contexto histórico, social e cultural, que aparece a geração modernista de 1946. Essa geração teve, na poesia, nomes como Cassiano Ricardo, Péricles Eugênio da Silva Ramos, Raul Bopp.

Na prosa, surgiram Lygia Fagundes Telles, Guimarães Rosa e Ruth Guimarães. Aliás, esses três fizeram um lançamento conjunto em 1946, cada qual com seu livro – “Praia Viva”, “Sagarana” e “Água Funda”. Cyro dos Anjos, que havia lançado “O amanuense Belmiro”, em 1937, voltava à cena literária com “Abdias”, em 1945. Há extensa cobertura da imprensa da época, mostrando Cyro dos Anjos e Ruth Guimarães, em alegre conversa, durante o lançamento de “Abdias”, em São Paulo, em 1946.
Para a crítica literária, o regionalismo é um movimento superado.

Ora essa! A própria crítica literária está em processo de falência, já dizia Leyla Perrone-Moysés.

Os jornais trazem resenhas apenas dos livros mais vendidos (e dá-lhe autoajuda). A revista Veja publica semanalmente uma lista – também apenas dos mais vendidos, e 80% deles são livros estrangeiros. Não há mais crítica literária na imprensa, desde que se aposentaram Antonio Candido e Nelly Novaes Coelho e desde que morreram Álvaro Lins, Nelson Werneck Sodré e Wilson Martins.

Cito três críticos remanescentes: Silviano Santiago, imbuído de uma noção imperial de escolha, Marcelo Coelho, que tem talento e competência mas segue ditames da Folha de São Paulo, e João Batista Natali, também da Folha, também sensato, mas também Folha de São Paulo.

Esmiucei tudo isso no meu livro “Imprensa, Poder e Crítica”.

Dentro desse redemoinho, ou dessa rede de moinhos, Ruth Guimarães aparece, aos 26 anos, com um romance que instantaneamente chamou a atenção da crítica. Ah! Sim. Na época existia crítica.

Opinião de críticos

Antonio Candido louvou o romance. Vamos ouvir o que ele escreveu:

“Este livro exprime bem o equipamento cultural e a visão de mundo de Ruth Guimarães, prosadora de qualidade e conhecedora profunda da cultura popular brasileira. É um romance, mas escrito como se fosse prosa fiada, como se fosse narrativa caprichosa que vai indo e vindo ao sabor da memória, ao jeito dos contadores de casos. Esta primeira impressão é justa, mas não deve esconder do leitor o que há neste livro de composição deliberada, de técnica bastante complexa, rica em elipses, em saltos temporais, em subentendidos. O que à primeira vista pode parecer meio solto vai se revelando bem travejado, regido por um intuito fabulativo que dá ao todo a necessária coerência, sem a qual não se instaura a verossimilhança.

Isso, quanto ao modo de contar. Quanto à linguagem, a construção talvez seja ainda mais elaborada, porque Ruth Guimarães consegue produzir um discurso de tonalidade espontânea, mas de fato carregado de estilizações bem conduzidas. Aqui não há o desagradável cacoete de muitos regionalistas: o de querer imitar com ânimo de exotismo pitoresco os modismos caipiras foneticamente sugeridos, do tipo “bamo ino” por “vamos indo” ou “entonce num havera de sê?”. Nada disso em Água Funda, caracterizado pela elaboração arte-ficial de uma linguagem que obedece à disciplina da gramática e, ao mesmo tempo, parece sair da boca do povo rústico. Isso se chama literatura e consiste em inventar uma linguagem suspensa entre o popular e o erudito, fazendo do livro obra que tem o timbre das realizações cheias de personalidade.

A interpenetração popular-erudito existe na própria concepção do livro, que é a história de um pequeno grupo rural de onde emergem certos personagens selecionados, sobretudo o par Joca e Curiango, sendo, ao mesmo tempo, uma espécie de afloramento do estrato mágico e lendário. De tal maneira, que a história do par central pode ser lida tanto como conseqüência das vicissitudes comuns da vida, quanto como produto de forças misteriosas encarnadas nos mitos intemporais. Há superposição, da qual resulta uma dupla leitura, cuja última instância seriam figuras como a Mãe de Ouro, entidade perigosa do tipo das Iaras, que pode assumir formas diversas no populário e aparece aqui sob o aspecto sideral de luminosidade fatídica.

Essa comunicação das esferas, do real ao fantástico, enriquece o texto e está ligada ao próprio teor do discurso. De fato, o livro é narrado por alguém que não se identifica, dotado de perspectiva onisciente e, parecendo membro do grupo descrito, é capaz por isso mesmo de assumir uma taxa de credulidade que justifica as discretas invasões do pensamento mágico. Esta voz penetra todos os refolhos das pessoas e do mundo e, ao deixar suspensa a possibilidade do fantástico explicar o real, assegura, ao mesmo tempo, a integridade deste. E nós podemos sentir, assim, a realidade viva de uma região, com a sua natureza, os seus costumes, os seus tipos humanos e também a magia insinuante dos mistérios que a mitologia popular exprime.

Por isso, talvez sejam felizes entre todos os momentos em que o narrador fala diretamente, porque então sentimos a fusão da escritora culta e da voz que ela inventou para animar o relato. É o caso do começo do livro, por exemplo, e também de muitos outros trechos, como a descrição da missa campal.

O que estou procurando sugerir é a complexidade dessa narrativa despretensiosa, que sabe fundir os planos e passa com tanta maestria do individual ao coletivo, do natural ao social, do real ao mágico. Voltando ao começo, é bom insistir no fato de Ruth Guimarães ser não apenas uma escritora bem dotada para a ficção, mas uma autoridade nos estudos da cultura popular, cultura que em Água funda constitui verdadeira rede de sustentação. Livros da autora como Os filhos do medo, como os contos que compendiou, como o belo estudo infelizmente ainda inédito sobre o ciclo de Pedro Malasarte, Calidoscópio, mostram grande saber folclórico servido por uma expressão clara e elegante, própria dos bons escritores. O leitor verá, neste livro, que a fluência da narrativa, a felicidade dos achados estilísticos e a densidade humana do todo fazem da leitura uma experiência válida e um grande prazer. “

Nelson Werneck  Sodré admirou “Água Funda”. Vejam o que ele escreveu, num artigo chamado “O Velho Vale”:

“Ruth Guimarães, em Água Funda, foi a narradora desse quadro de fundo das crenças e dos conhecimentos populares, na região em que o vale toma contato com o sul mineiro, ali mesmo onde, há tantos anos, que se contam como séculos, os bandeirantes procuravam a soleira fácil da Mantiqueira, para passagem à zona mineradora, onde o Paraíba, apertado pelos contrafortes de Quebra-Cangalha, se precipita nas corredeiras a que tomou o nome a cidadezinha depois  batizada de Valparaíba. Todo o conteúdo emocional e pungente, cheio de reminiscências dos mais velhos tempos e ungido da graça e da facilidade popular, foi captado, com inteligência e arte pela narradora, que os fixou numa obra que, constituindo-se um exemplo excelente de técnica literária, ficou profundamente ancorada nos motivos populares.
Esse  encantamento,  esse sortilégio profundo do vale, ainda quando os seus filhos se afastaram para outras zonas, ficam em suas memórias. E assim começam a surgir os escritores que, recordando-se das paisagens da infância  e da adolescência, recortam-nas com rigor e vivacidade, dando-lhe forma literária.”

Guimarães Rosa o invejou. Ele escreveu uma dedicatória, no seu livro “Corpo de Baile”, dizendo a Ruth o seguinte:

“Ruth Guimarães, minha irmã, parenta minha, que escreve como uma fada escreveria”.

Alves Mota Sobrinho, em artigo publicado na Revista Ângulo, por ocasião do cinquentenário do lançamento de “Água Funda”, em 1996, escreveu:

Eu resumo “Água Funda” em três palavras: telúrico, ecológico e mítico.

“Água Funda” é telúrico, porque brota da terra.

Ecológico, porque as paisagens - física e humana - se transformam e também são transformadoras.

Mítico, porque mostra a busca da Mãe de Ouro, forte, inatingível, porque inexistente, fruto do imaginário popular.

Ruth, nos anos que se seguiram ao lançamento de “Água Funda”, foi princesa, nos jornais paulistas: Correio Paulistano, A Manhã, Folha de São Paulo, Diário de Notícias, A Gazeta.

Voltaria a ser notícia quatro anos depois, em 1950, com o lançamento de “Os Filhos do Medo”, uma pesquisa de fôlego que levou debaixo do braço para mostrar a Mário de Andrade, o Mário da Paulicéia Desvairada, o Mário de Macunaíma. 

O romance

O romance "Água Funda" retrata a região sul-mineira do início do século. É uma história de costumes, com a análise fundamental dos personagens e sua ligação com a terra, os conceitos de família, sociedade, amor e dinheiro, num momento da vida brasileira em que a máquina chegava para substituir os operários, os caminhões expulsavam das estradas as tropas de burros e o homem pobre não sabia muito bem como se estabelecer dentro dessa nova relação. A linha-mestra é o amor e a loucura do amor, ou a loucura do desamor. Todos os personagens são reais, e embora as situações específicas sejam fictícias, os acontecimentos se deram, precisamente como foram contados. E, como frequentemente acontece, ninguém aprendeu nada do seu significado. "Água Funda" é um retrato do Brasil, na corrente literária regionalista que teve como princípio o resgate do pensar brasileiro, e do sentir brasileiro.

As inovações de Água Funda

Água Funda é uma rapsódia sertaneja. Rapsódia é uma composição musical de temas populares. Isso nos leva à musicalidade na escrita de Ruth.

Além disso, foi uma obra pioneira em vários aspectos:

1) anotou o papel da mulher independente (antes de José Lins do Rego e Graciliano Ramos)

2) promoveu a transição para o mítico, de base folclórica, mais ou menos como Mário de Andrade fez em Macunaíma

3) fez o registro da identidade brasílica, do caipira paulista e mineiro – na esteira de Valdomiro Silveira, sobre quem escreveu em 1974 um livro a quatro mãos com Bernardo Elis, da Academia Brasileira de Letras. 

Uma curiosidade: o caipira acredita em praga. Ruth, que não era católica praticante, acreditava em praga.

A autora

Ruth Guimarães foi mulher de grande atrevimento diante da vida. Tinha o atrevimento dos inconformados, o atrevimento dos inquietos.

Uma mulher de grande força de trabalho. Produziu uma portentosa pesquisa, o “Dicionário de Mitologia Grega”, para a Editora Cultrix, em um ano, porque precisava comprar uma casa.

Mulher de princípios éticos e de retidão. Honestidade a toda prova, inclusive nas palavras. Solidária, ensinando o que sabia, inclusive mulheres pobres a produzirem artesanato como fonte de renda. Fraterna. Atendia, o dia inteiro, pessoas que batiam à sua porta, desde intelectuais para um dedo de prosa quanto mendigos em busca de um prato de comida. Carismática. Líder. Serena.

Encerro com uma pequena crônica sua, texto que, ao mesmo tempo que lhe revela o espírito, serve-lhe de epitáfio:

É julho
Ruth Guimarães

Quando esta crônica for lida, já estarei na chácara, em pleno Vale do Sol. É julho. É julho das noites límpidas, de lua líquida, de céu profundo, de estrelas geladas. É julho e a mangueira se enfolhou de novo e se cobriu de flores. Contra o luar, ela parece solene, grandona, misteriosa. Muito alta, toca as nuvens e as galáxias. Por ela roçam os anjos de asas imensas. De dia, ela perde em espessura, despojada da escuridão e ganha em juventude. Não mais joias dos astros, na cama de veludo e sombra. Seu toucado é feito de flores e abelhas. Está enfolhada para a festa nupcial, coberta de verde novo, e de pétalas antigas. O vento aí vem, enamorado, soprando manso, nas tardes finas. Ouro velho forra o chão, suntuoso tapete de desenhos inimitáveis. As abelhas voam zumbindo. Na florada da manga o mel é grosso, é forte, cheira bem.

Na chácara o sol se levanta cedo. Às sete da manhã já está de fora, gloriosamente, acabando de esfiapar um resto de neblina. E se reclina sobre a mangueira feliz, reverdecida, tonta. Quem o anuncia é a corruíra, que fez um ninho complicado nos ramos do maricá, depois que brigou com a pitangueira.

É julho. Jamais esmaece o verde da grama. Jamais esmaece o verde-oliva das laranjeiras cheirosas. Jamais esfria o raio de sol. Jamais empalidece o azul cobalto do sol. Jamais entristece a cançãozinha clara do Paraíba, murmurante entre as pedras, todo revestido de luz.

Mas as bananeiras de tronco roliço e palmas longas soltam grandes cachos, que vão granando e amadurecendo, como se não fosse julho. Mas os limoeiros perfumados têm flores e frutos a um tempo, num desperdício. Mas os sanhaços furam os mamões de casca dourada e polpa doce, macia, escorrendo melado, que os passarinhos desprezam e as vespas aproveitam. Mas as velhas goiabeiras, que já estão meio caducas, não esperam a chuva: as goiabas amadurecem, entre os vivas dos bem-te-vis e a zoeira dos marimbondos.

Há muito tempo, eu não ouvia os sinos. Aqui eu ouço os sinos. Ninguém me acredita. Mas é julho, é inverno, os morros vestem a florada roxa do capim-angola, as maitacas voam cedo para o mato, voltam num clamor, às cinco da tarde. Asas de andorinha riscam (é julho) o céu sereno. Elas daqui não se vão.

Da última vez que cheguei, foi com o repetido suspiro de alívio que me confiei à sovada cadeira de braços, entre paredes bem precisadas de pintura, coitadas! Havia de novo uma goteira. Deixem-me contar de outro jeito: havia uma nova goteira. Lá estava a mancha. À entrada, o degrau parece que me reconhece, estalou devagarinho, cumprimentando.  O espelho também me reconheceu. Diante dele não estava a estranha de outros reflexos. Precisei de andar descalça pela casa toda, pois na sapateira, como de costume, nenhum sapato, nem novo nem velho. Estariam por aí. Depois de vasculhar com uma vassoura, embaixo das camas, encontrei dois pés direitos de chinelo.

Qu’importa lá?

Aqui sou rainha, sou czar, sou Deus, e como amo esses chinelos doidos!

Então não é isso a felicidade?
  








Joaquim Maria Botelho, jornalista e professor, mestre em Literatura e Crítica Literária pela PUC/SP e especialista em Jornalismo Internacional pela Universidade de Wisconsin, EUA. Foi presidente da UBE – União Brasileira de Escritores por três mandatos. Seu livro mais recente é o romance “O livro de Rovana”.

segunda-feira, 31 de março de 2014

Retrato de Amadeu Amaral

Ruth Guimarães

Retrato? Apenas de perfil. Deixemos a outra face, a da Poesia, mergulhada na sua sombra e no seu mistério.
Poder-se-ia dizer, em primeiro lugar, que Amadeu Amaral foi um artista que nasceu atrasado, se também não se devesse afirmar, com mais esperança do que verdade, que os tempos do trabalho e do ideal são todos os tempos.
Muito antes de o ler, tinha eu já notícia dos ditos irônicos, da casmurrice, da capacidade fenomenal de trabalho, da minuciosa exatidão e ordem com que escrevia. Também sabia do caprichoso humor cambiante, meio temeroso, das explosões de alegria, dos pesados silêncios, do modo arredio, da desconfiança excessiva.
Entretanto a primeira noticia real e a primeira pincelada de auto-retrato vieram numa carta escrita por ele a Mario de Andrade:
“O senhor está ligado em minha terra, que é também a sua, a uns tantos escritores e poetas que me têm feito uma guerra surda, surda quase sempre, às vezes, aberta, pagando com maledicências e com epítetos de todo tamanho a atitude altamente imparcial, serena, compreensiva e até simpática que sempre mantive, por temperamento, por sistema, por curiosidade de espírito, por esforço de equanimidade, diante de todos quantos, bem ou mal, aparecem a labutar em letras neste país analfabeto”.
É mister separar as muitas e múltiplas faces de cada atividade de Amadeu Amaral, - que as teve muitas – se o quisermos compreender, pois como o Trimegisto é ele tresdobrado. Nele convivem o esteta, o humanista, o autodidata, todos com um denominador comum de determinação e trabalho.
O esteta e o humanista se confundem gerando o amor da forma, o que fez muita gente distinguir nele o parnasiano que não foi. Ao seu autodidatismo podemos ligar, talvez, a forma tentacular das atividades inumeráveis, no campo da literatura, sem que tenha se firmado no ensaio, que as qualidades de exegeta faziam prever. É do autodidata, em segundo lugar, o entender a crítica como exegese e não como lição.
“Discordo da atitude do que poderia ter sido. A crítica deve aludir ao que foi e é”.
Vá lá que se dedique apenas à critica apologética. Ele a faz como homem sincero, quando admira realmente o criticado. Concedemos que lhe seja uma feição acidental, apenas uma faceta do talento. É nela, todavia que lhe surpreendemos as qualidades mais marcantes do caráter, e a sua orientação moral, filosófica e estética. Quando afere valores alheios nos dá a medida exata para a aferição do seu próprio. E então, a espaços, como clarões da noite, nos é dado vislumbrar traços rápidos da personalidade inquieta e vigorosa, até que afinal surja o homem inteiro da obra crítica, claro como a água, nítido como efígie, bom como pão, valente como armas, e inesperado como bruxo, saltando de uma caixa de surpresas.
Inúmeras são as lições contidas na obra crítica de Amadeu Amaral: a posição permanentemente polêmica, o firme apostolado, a atitude de simpatia, o denodado trabalho, e, finalmente, a nota mais marcante, a sua auréola: a honestidade e a bondade. Dessas virtudes dão testemunho os seus contemporâneos, de maneira um tanto embaraçada e comovida. Hélio Damante nos diz que possui o dom da boa vontade. Era um homem profundamente sereno, dizem outros. “Plácido” confirma Cerqueira Leite, repetindo não sei quem. Não foi gratuitamente, por certo, que o filho, “o menor dos seus devotos”, escreveu uma biografia dele que tem por título: “A vida de Santo Amadeu”.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Enigma

Ruth Guimarães

O “século das luzes”, como foi chamado, tinha antes sido violentamente positivista, materialista, realista, naturalista, entregue às ciências, e à solução imediata dos problemas, mesmo os estéticos, por vias nada metafísicas. Falava-se em invenções e descobertas. Falava-se em experimentação e artesanato. A confiança degenerou em fanatismo, não havia ideal, mas ideologia, e por fim se chegou, lá pelo fim do século, à dúvida, ao desânimo, à falência do método material para a terapia dos males. Mais uma vez a humanidade chegava ao cansaço e não chegava à solução. E nesse “fin-de-siècle”, cujas nuanças repousaram no crepuscular, em que o espiritual se transformou num refúgio e num oásis surgiram suaves meias luzes de espiritualidade e misticismo. Ao social sucedeu o individual. Ao realismo, o sonho. Ao que era nítido e cortante, cheio de arestas e de impiedade, seguiu-se o esfumado, o vago, a sugestão, o mistério, o divino. Todo o mundo ocidental cambiou para esses vagos meios-tons. O homem procurava em si mesmo, o que debalde havia buscado na sociedade.

A reação contra o materialismo começa mais ou menos em 1870. Parece que o terreno estava preparado, pois que o simbolismo se alastrou pela Europa toda, rapidamente. Filiaram-se à corrente as influências artísticas, filosóficas e críticas. Poetas, pintores, escultores, decoradores, o romântico Wagner com o aspecto lendário e mágico dos seus dramas, Schopenhauer, com a sua estética e sua ética pessimistas, influindo através de Wagner e de Nietzsche, tudo tendeu para o misticismo. Aliás, o misticismo foi uma tendência básica da corrente. O iluminismo se insinuou na vida intelectual da Europa. Surgiram, imprevistamente, vários autores esoteristas, ocultistas, cabalistas, teosofistas, os cavaleiros da Rosa Cruz, os que lidavam com a alquimia e a pedra filosofal.

Foram os prógonos do movimento, os pré-rafaelistas na Inglaterra, o romântico Ruskin, e Walter Pater. Na França, Baudelaire na poesia (Les Fleurs du Mal é de 1857, e tinha sido começado a publicar em 1841) e Barbey d’Aurevilly na prosa. Não se pode deixar de mencionar Edgar Allan Poe, o desgraçado autor de “Never more”.

Então o mundo tomou decididamente o rumo da espiritualidade e seguiríamos, ao que parecia, anjos e santos, pelas sendas luminosas. E foram a alma e o céu, o amor e a bondade, na Literatura e em tudo o mais.

Essas coisas aconteceram uma e muitas vezes antes. Essas coisas acontecerão muitas e muitas vezes, nesse rebanho indócil que é a humanidade. Ocorrerão nestes momentos de crise hoje, e outra vez depois desta crise e outras vezes, per omnia saecula saeculorum. Qual é o motivo? Qual a intenção? Qual o destino?

Por que nos mantêm os deuses (se é que existem) na mais absoluta escuridão?

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Da literatura infantil

Ruth Guimarães

É do que eu estava falando: dessas histórias para crianças. Elas teriam que ser principalmente misteriosas para irem fundo na gente, para que a compreendamos com a alma, aprendamos o que tiver de ser compreendido e aprendido, e para que não as esqueçamos jamais.

As manifestações do povo, seguindo o caminho do folclore, seguem o caminho da eternidade. Estamos falando especificamente de lendas e de fábulas, do reino das fadas, do tempo em que os animais falavam.

É esse caminho do inconsciente que percorremos desde o berço, apesar das disposições governamentais, da arrogância das escolas, dos projetos, da moda, dos costumes, das imposições sociais.

Fanny Abrimovitch nos alerta para a incrível e abominável coleção de mediocridades que servimos às nossas crianças hoje. Damos-lhes alimento de adultos, literariamente falando, ineptamente facilitado por alguns escritores.

Realmente, hoje, em que pesem os progressos da psicologia e da didática, o que temos no campo da literatura infantil, o que temos ainda nos campos da literatura da infância é um pouco de Monteiro Lobato, que iniciou um movimento pelo que é nosso (falo da infância). Ainda temos muito de Walt Disney, antes, durante e depois. E alguns outros raros, bissextos, como Malba Tahan, o eloqüente, por exemplo. Dos contos, mesmo em publicações muito bonitas, de boa fatura, continuamos com Branca de Neve e os Sete Anões e o indefectível raconto do Chapeuzinho Vermelho com o Lobo Mau, que nenhum de nós conhece (Lobo? que bicho é esse?).

Onde iremos buscar os elementos necessários para o enriquecimento da nossa literatura dita infantil? Esses que nos vêm das nossas realidades mais profundas da alma que Deus nos deu e da terra que Deus nos deu. Digamos que acontecem e vêm para nós, por via folclórica.

Em suma, temos um rico acervo de racontos. Nos quais, a par do enredo, do comportamento dos personagens, bichos ou gente, reponta o conhecimento profundo de nós mesmos; conhecimento este fixado sem dor, sem castigo, sem palmatórias, ou ensinado na base da receita, do conselho, do decoreba, que jamais convencem e que resultam em nada.

Muito bom que nossas crianças leiam parábolas: todas as mensagens bíblicas, as mil e uma noites, as mitologias. Mas que leiam também, quem sabe primeiramente, nossos contos vindos da Europa e readaptados, e aqueles que vieram da senzala e das tribos. Conhecerão elas os contos em que entre o Quibungo, conto que as ensina a serem cautelosas? Conhecerão, foram-lhes apresentados os relatos da tribo, a sua teogonia, tão bela e tão confortadora?

Temos exemplos universais, muito eloqüentes, do bom aproveitamento que está na memória do povo. Pesquisadores enriqueceram nossa visão de mundo e nos trouxeram pérolas de suas andanças pelo subconsciente brasileiro. Mas esses não são artistas, o seu campo é outro. Os “pesquisadores-artistas” foram, na música, um Bethoven com seus lieds, e os Beatles trabalhando as lindíssimas canções escocesas. Aqui entre nós, Chico Buarque reescrevendo Teresinha de Jesus. No terreno escorregadio da arte da palavra, Selma Langerloff e suas tão singelas e tão formosas histórias, por via das quais ela foi até o Nobel. Não somente por via das narrativas, mas da arte de contá-las.

De narrativas, temos de tudo isto no Brasil, pois não. Com a mesma singeleza e simplicidade e a mesma beleza.

Contam-nos, por exemplo, que a noite estava escondida no fundo das águas, porque de primeiro noite não havia. Era só dia. Foi quando a filha da rainha Luzia quis se casar. Dois índios de peito largo foram buscar a noite, porque não teria graça um casamento em plena glória do sol. Depois de muitas peripécias, os índios soltaram a noite da sua prisão no toco de tucuman. Veio a escuridão e todas as coisas se perderam. Quando a filha da rainha Luzia (em algumas variantes da Cobra Grande) viu a noite - e chegou logo depois a madrugada, precedida pela Estrela d’Alva - , separou o dia da noite, pintou de branco o cajubim e ordenou-lhe que cantasse. Enrolou um pedaço de fio, sacudiu cinza em riba dele e comandou: Você será o inhambu, para contar os tempos da noite e da alvorada.

E daí por diante a filha da Cobra Grande fez dormindinho no escuro com seu amor.
Imagem de Botelho Netto

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Ainda Remarque significando vida

Ruth Guimarães

Em uma entrevista, há não muito tempo, me perguntaram sobre a questão do demônio do subconsciente das pessoas. Como eu via esta questão.

Respondi que o problema estava no meu subconsciente. Eu morava numa fazenda, num casarão que era uma imensidade, a casa tinha vinte e seis cômodos. Um deles era um salão que dava para se fazer baile. Faziam-se bailes lá na minha casa, e a minha mãe tomava conta lá da fazenda. Tinha quatro empregadas para poder gerir a fazenda. Tinha a cozinheira, a copeira, a arrumadeira. Mais a faxineira que vinha de fora. E a lavadeira, que se desdobrava em duas: ela e a filha.Vinham uma vez por semana, e uma vez por semana em casa se fazia uma espécie de mutirão para fazer doce: em calda e cacheta. Estes eram os dias de descascar marmelo, descascar pêssego, figo. Era dia de contar história. E o pessoal contava história de arrepiar. Descascando fruta e contando história. Quando era a hora do tacho, não me deixavam ficar na cozinha, porque era uma mexeção de tacho. Tudo quente e gente correndo pra lá e pra cá. Porque fui muito arteira, Nossa Senhora! “Dona Maria, tira a Ruth daqui que ela é muito arteira!” Não me deixavam ficar na cozinha. E com isto eu me familiarizei com todo o folclore de horror, e o diabo era um personagem importantíssimo, aparecia em tudo. Eu sabia como é que a gente chamava o diabo, como é que entregava a alma pra ele, como é que tinha que rezar, como é que fazia invocação, as árvores que ele freqüentava – a figueira brava, a peroba. Isso foi ficando entranhado, isto foi se fazendo lá no meu inconsciente. Eu não acreditava em Deus, nem sabia o que era Deus, porque eu ainda não tinha tido nem catecismo e já sabia quem era o diabo. Tive um inconsciente moldado pelo demônio e precisei escrever um livro sobre o demônio para me ver livre dele. Só depois que escrevi é que o diabo deixou de me incomodar, porque mesmo não acreditando, porque eu não acredito, mesmo agora, a religião não conseguiu repor o diabo no lugar. .Quer dizer, minha religião... nem tenho religião nenhuma. Mas, o diabo ocupava um lugar muito grande e me dava ordens. Eu era apavorada. Se eu lembrasse que o diabo não gosta de escuro, não gosta de luz, não entrava num lugar escuro de jeito nenhum. Quase foi um caso de internação.

O comentário seguinte foi: de psicanálise....

De psicanálise, não. De psiquiatria. Era apavorada mesmo. Eu tinha mesmo de falar do diabo, contar a história do diabo, porque estava me incomodando. Aí eu escrevi Os Filhos do Medo e me libertei. 

Talvez por isso eu entenda O POETA

O POETA REPETINDO A LOUCA

O homem pálido que se encontra no alto, à minha frente, com sua barba e seus membros ensangüentados, não é isso. Foi há dois mil anos, e, durante todos esse tempo, a vida, com suas luzes, seus gritos de paixão, suas mortes e seus êxtases, evolou-se em torno das estruturas de pedra onde se erguem as figuras desse homem pálido, agonizante, vago, ensangüentado, cercado de milhões de Bodendicks (o padre) – e a sombra cor de chumbo da Igreja estendeu-se sobre as nações, asfixiando a alegria da vida, transformando Eros, alegre, num secreto, sujo e pecaminoso acidente de alcova. Sem perdoar nada, apesar de todos os sermões sobre o amor e o perdão, pois o verdadeiro perdão significa aceitar o homem como ele é, e não exigir expiação, obediência, submissão, antes de ser proferido o “ego te absolvo”

A VOZ DO POETA

- A música também encobre as coisas, mais do que as palavras.

- Há uma espécie de música que revela as coisas. A música de tambores e clarins. Tem causado ao mundo muita infelicidade.

A VOZ DA LOUCA

- Nada está errado. Errado ou certo é algo que somente Deus sabe. Mas, se Ele é Deus, não existe certo ou errado. Tudo é Deus. Só seria errado, se estivesse fora dEle. Se alguma coisa pudesse estar fora dEle, ou contra Ele. Ele seria apenas um Deus limitado. E um Deus limitado não é, de modo algum, Deus. De modo que tudo está certo, ou então, não existe Deus. É tão simples!

A VOZ DO HOMEM COMUM

Nunca faça alguma coisa complicada, quando algo simples dará o mesmo resultado. É um dos segredos mais importantes da arte de viver.

UM HOMEM QUALQUER

A gente está tirando proveito da vida, quando nada se quer, em determinado momento, além daquilo que se tem.

O obelisco negro
Erich Maria Remarque, Editora Bruguera, Rio de Janeiro.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

As quatro forças da alma

Ruth Guimarães

A primeira lei do universo é que, se o homem quer se sentir feliz, realizado (e essa busca é primordial da espécie humana) o imperativo categórico é o crescimento interior. A criatura terá que procurar, e encontrar, a sua plenitude. Quatro forças o impulsionam nessa procura que é de toda uma vida. Amor, ódio, um construtivo, e outro destrutivo, a consciência, a necessidade de dominar. Esta última força é a mais difícil, pois está na base de toda a estrutura, e tem que começar cada um por dominar a si mesmo.

O sentimento do Amor é belo e é a mais alta das formas de conhecimento. Tem algo de divinatório. Observe-se como as mães procedem, como conhecem os filhos, como adivinham.

Entretanto o próprio amor pode ser desvirtuado. Há pessoas, por exemplo, que somente podem amar a si mesmas. Chegam a amar a si próprias amando a outrem, como é o caso dos ciumentos. E há aqueles que somente a si se vêem, como acontece com os narcisistas, apaixonados por sua imagem na superfície das águas. E há os hipocondríacos, exploradores de cada centímetro do corpo, esquadrinhando cada sensação, cada órgão, sentindo doenças inexistentes, e gastando tempo com tratamentos médicos inúteis, ou em falar sobre doenças intermináveis. E há os que se fecham nas dores sem consolo, sentados de costas para o futuro e de frente para o passado, lá mesmo onde se perderam algum dia. Esses desistiram de alcançar o que deve ser prioridade para todos: a conquista do nosso espaço.

Duas coisas podemos fazer: vencer os sentimentos agressivos ou empregá-los triunfantemente, numa bela causa.

A agressão deve servir para defender a prole, a honra, a tristeza, os agravos, os ataques de uma sociedade mesquinha, a injustiça. Para lutar contra o mal. Para elevar a Pátria. Para pugnar pela Família, como fazia o homem das cavernas com a sua clava. Para transformar uma cidade viciosa num mundo melhor.

Para plantar é preciso arrotear a terra. Para construir é mister cavar fundos alicerces. Para viver é necessário lutar. O próprio Jesus disse: “Eu não vim trazer a paz; vim trazer a espada.” De que Paz falava? Evidentemente não da serenidade que é a paz interior, mas da contínua guerra que é a existência.

O ódio é a exacerbação dos sentimentos de raiva, de rancor, de hostilidade, das frustrações, da vergonha, do remorso. O odiento abdica de sua qualidade de homo sapiens, e da sublime condição de filho de Deus vivo, para refocilar na lama das vergonhosas tendências.

A sabedoria consiste em procurar o equilíbrio entre Amor e Ódio, que ambos fazem parte da nossa alma. Nem sempre seremos anjos, nem sempre demônios. Usemos pois a agressividade para as boas causas, contra o que há no mundo de pequeno e de mesquinho.

foto de Botelho Netto
Ser pasto de ódio, sempre, cria tensões que desgastam a alma e o corpo. Alguns dirigem a sede de destruição contra o próximo e ei-lo clamando contra Deus e o mundo, atacando com língua viperina os vizinhos e conhecidos. Ou afivelam uma carrancuda máscara que afugenta de si qualquer que se aproxime. Ou são baderneiros e briguentos. Entretanto, parece que o pior caso de agressão é o menosprezo. Os que desprezam os semelhantes, em vez de canalizar toda a energia e ódio para o mal e suas horríveis conseqüências, preferem transferir o desprezo e a irritação contra qualquer que esteja em grau abaixo do seu patamar, e que preferivelmente não possa se defender, nem reagir: a esposa, os filhos, os subordinados, caixas, garçons, serventes, faxineiros, crianças, e pobreza em geral. Desse mecanismo surge, escamoteado, o bode expiatório, aquele que paga pelos outros, porque não tem prestígio e não tem quem o defenda, falta-lhe nome, projeção, apadrinhamento, um sistema equânime. Daí se parte também para a exploração das crianças que trabalham, dos abandonados, dos rejeitados, dos excluídos, dos ignorantes, dos párias. E daí como uma flor venenosa brota o preconceito racial, resultado da agressividade e do desprezo.

A vida é antitética. Tudo está no binômio dos contrários – ser e não ser. Shakespeare colocou esta filosofia, exprimindo-se pela boca de Hamlet, príncipe da Dinamarca. To be or not to be, that is the question.

Pois esta é a questão. Este é o dilema. Ser ou não ser. Neste compasso binário levamos a vida. O dia e a noite. A luz e a sombra. A maré alta e a maré baixa. Sístole e diástole. A cópula. Altos e baixos da vida. E a imensidão abrangente que envolve tudo o que existe, o bem e o mal, que os gregos personalizaram nas figuras míticas de Eros e Anteros.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Do outro lado da montanha

Ruth Guimarães

Fui convidada a comentar o livro da Maria do Carmo Silva Soares, “Do Outro Lado da Montanha”. Li, com carinho, porque quem escreve com a alma merece ser lido com o coração. Sobre a autora, eu digo que, para ser poeta, até nem é tão necessário saber escrever, mas principalmente saber sentir. É ter, nos ouvidos e na alma, o ritmo insistente de um trenzinho que corre entre montanhas. E é assim que essa moça Maria do Carmo nos dá uma obra-prima de ritmo e coração, com aquela poesia chamada Trem Mineiro, que vem acontecendo à medida que lemos, dentro da nossa memória, nas batidas do nosso coração, no amor que palpita em cada mineiro expatriado, em cada um que emigra, e continua guardando, dentro do peito, em sinceridade e saudade. 

Faz bem ler, enquanto ouvimos com a alma, o trem que passa comprido, soltando fumaça, as longas baforadas enroladas em novelos cinza escuro, pela longa linha gradeada de dormentes. Não é a pura ritmia do café-com-pão, café-com-pão café-com-pão, bolacha-não. Mas é a repetição de uma saudade que dói.

Poesia não é palavra, mas alma e paixão. É som que nos persegue na lembrança. 

Maria do Carmo faz uma longa viagem de trem mineiro, tão bela, livre, autêntica e expressiva, que nos obriga a segui-la, mineiros que somos, com todos os sentidos atingidos. E, então, ouvimos o sino da estação que anuncia a chegada do trenzinho. Ouvimos o apito da locomotiva negra, resfolegante. Dançamos ao calor das máquinas à lenha, o vermelhão das labaredas a esquentar ainda mais o dia claro. 

E o povo? Num burburinho, e mais o pregão dos meninos que vendem pasteis e os que apregoam: “A laranja tangerina, óia a fru-deconde!” E enquanto o trem vai chegando e parando, à margem dos trilhos, as casas de beira-linha correm para trás. 

Nos outros versos deste livro, a mesma pungente vivência. 

Contava-se, ali mesmo, em Maria da Fé, a história da mulher que foi cruelmente espoliada, e de certa maneira assassinada – pois que nunca mais voltou a ser ela mesma. Essa história vem em prosa, no meu livro chamado Água Funda, que traz paisagens de Pedrão, Turquia, Anil, Cristina, Maria da Fé. 

Cantemos com a feliz autora, do “Outro lado da montanha”: 

Minas Gerais, Minas Gerais, 

Quanta saudade você me traz!

Tudo isso nos vem à lembrança, lendo os versos de Maria do Carmo. Tudo porque ela nos presenteia, não somente com um excelente livro de lembranças, mas com a sinceridade de quem escreve com o coração nas mãos.

Releitura de Jubiabá

Ruth Guimarães

Jubiabá, apesar do seu pouco valor, como obra representativa tanto da nossa literatura, como da própria obra de Jorge Amado, é um dos seus livros mais expressivos. Nele já estão os elementos que se desenvolverão mais tarde, quando o Autor atinge a obra-prima, revelando-se o pícaro com características bem brasileiras dos livros posteriores, a partir de Gabriela, Cravo e Canela. O amor livre, a mulher como criatura da natureza, fora de peias sociais, ali se delineia nas figuras femininas primitivas. Jorge Amado mesmo se revela um primitivo em Jubiabá. É como primitivo, um emotivo espontâneo, que ele capta o mistério de Jubiabá o feiticeiro, sendo que este não é personagem importante, mas o feiticeiro que dele emana e cria um clima estranhíssimo, catalisador de destinos, esse é. Em Jubiabá, livro da primeira fase, poético e sem aprimoramento, a sociedade da Bahia, isto é de Salvador, é vista através de um personagem, Antônio Balduíno, negro do morro, enjeitado e rejeitado. Que não conheceu mãe e nunca teve pai, criado por uma tia que lhe dá comida, castigo, um tanto de indiferença, e um ângulo singular para enxergar e apreender o mundo

Antônio Balduíno, moleque de morro, capitão de areia, caminhante de muitos caminhos, vivendo o drama dos favelados, dos párias, dos injustiçados sociais, é um sonhador de sonhos. Vive entre marginais, saveiristas, gente sem nenhuma possibilidade de viver dignamente, mas olha para as estrelas e elas lhe dão mensagens. Tem admiração pelos heróis populares, deseja ser um deles. Como aqueles cantados nas feiras, em ABCs populares, artistas do desafio e do repente, como Manuel do Riachão e Inácio da Catingueira. Ou gente do cangaço, como Lampião, Corisco, Azulão, o Diabo Louro. De um lado a poesia, do outro, o guerreiro. Tivesse nascido em Pajéu de Flores, seria o jagunço vestido de couro e alpercatas, chapéu quebrado na testa, a munição pesando na guaiaca, enfrentando com audácia os macacos das volantes. Fosse de mais abaixo, das rumorosas cabeceiras do São Francisco, e o canto lhe sairia puro nas cantigas. Fosse vaqueiro, domador e peão, e talvez nome seu ecoasse pelas estradas boiadeiras, façanhudo e provocador de lendas. Pária da cidade foi capitão de areia, mas não nascera para marginal. Jubiabá – é um livro de denúncia. Qual a salvação preconizada por Jorge Amado, que, nesse momento, a partir de 1932, entra no caminho do proselitismo comunizante? Somente a politização da pária, a sua conscientização, farão com que ele se salve.

Integrante do PCB, o comunismo de Jorge Amado é tão romântico e tão inócuo, que jamais foram os seus livros proibidos. Fazer auto de fé de Jubiabá, para quê? As idéias de Antônio Balduíno são sonhos inofensivos, assim como o proselitismo do Autor, que, sob o romântico das pregações contra as injustiças sociais, está se preparando para se revelar o burguês que no fundo sempre foi.

Antônio Balduíno, menino de morro, capitão de areia, boxeador, procurando se realizar, sem estar preparando para nenhuma das coisas que empreendia, desaproveitado e inadaptado, acabou frustrado, mas herói. Atingiu o clímax, inter pares, e ressuscitou no ABC a que todo herói tem direito.

Jubiabá é novela, com heróis sem abismos, e sem funduras psicológicas, a narração linear, poema em prosa, épica sertaneja, de um escritor que, no fundo, é primitivo como os seus personagens, por isso tão autêntico, revelando, de forma tão pura, o lirismo da alma baiana.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Tudo a ver

Ruth Guimarães

Quando Ronnie Von me convidou para um papo informal no seu excelente programa, dei tratos à bola para descobrir porque razão tinha sido convidada, uma vez que os meus raquíticos livros não justificariam tal honraria.

Acabei chegando à conclusão de que devia uma ligeira notoriedade aos meus amigos José Luís Pasin e Ocílio Ferraz, secundados por minha amiga Irmã Olga de Sá que me rotularam de “Bruxa do Vale do Paraíba”, apelido emprestado de um artigo de meu filho mais velho, Joaquim Maria, e que até não me ficava de todo mal. Eu acho.

O que eu não esperava, evidentemente, é que fosse interpelada sobre todas as minhas atividades de bruxa. E quando Ronnie, com sua insuperável civilidade (que faz dele um raro gentleman) me indagou sobre meus processos de bruxaria, esqueci-me do que me cumpria dizer, e dei a entender inocentemente que não endosso essas conversas de bruxa. Que sou é contra essas comemorações de dia das bruxas nas escolas, os halloween de nefanda memória, enquanto a gente se esquece que tem os Saci Pererê e outros duendes brasileiros tão bons e tão engraçados quanto.

Realmente. O que fiz para justificar meu título moderno de bruxa do Vale do Paraíba? tão belo e americano, e tão na moda! O que está sendo feito das nossas realidades brasileiras? O que foi feito daquela velhinha boa que frequenta muitas das nossas histórias? Esquecemos de contar histórias de Nossa Senhora, personificada por uma velhinha boa. Mas como diz Autran Dourado, vá que mexer com Nossa Senhora dá castigo. Fiquemos com a bruxa. E que eu seja a bruxa do Vale pelo que me acrescenta de mistério e pelo que me gratifica de encantamento.

Em verdade participar desse programa é um prêmio por que Ronnie é gentleman de um gênero que anda vasqueiro não só nas famílias mas principalmente nos programas, que poderiam ser estupendas aulas de cavalheirismo e de finesse. E Ronnie difunde aqueles altos conceitos em que não acreditamos, que nos trazem o sorriso aos lábios. 

Isso não se usa mais, temos vontade de dizer, ao percebê-los e senti-los esfumarem-se diante de nossos olhos. 

O que está ocorrendo neste mundo? 

O que houve com as nossas crenças? Para onde fugiram o Amor? a Bondade? a Paciência? A Delicadeza? Não se acredita mais e nem se aceitam os grandes valores, tanto os sociais como os familiares. Enquanto nada se modifica para melhor, vamos assistindo o programa do Ronnie Von, que celebra ainda, e que seja por muito tempo, os valores da existência.

Cantares

Ruth Guimarães

“Cantos, ritmos e sons de instrumentos regionais e folclóricos. A música vai invadir salas, pátios e jardins das escolas do país. A disciplina defendida por um dos mais talentosos maestros brasileiros, Heitor Villa-Lobos (1887-1959), volta a ser obrigatória na grade curricular dos ensinos fundamental e médio. Para especialistas, a aprovação da Lei nº 11.769 em agosto de 2008, significa uma formação mais humanística dos estudantes, na qual serão desenvolvidas habilidades motoras, de concentração e a capacidade de trabalhar em grupo, de ouvir e de respeitar o outro.”

Governos e conselhos de educação inauguraram uma prática que me parece sábia: o canto nas escolas. Ora, dirão, então não havia antes canto nas escolas? Havia aula de música, o que é outra coisa muito diferente. Havia aula de canto orfeônico, o que é também diferente. E havia o ouviram do Ipiranga ás margens plácidas. Ora, senhores, isto é cantar? Sei que vão argumentar com o carnaval e com os sambas e com as cabrochas que descem o morro vestidas de princesa, para virem rebolar no asfalto. Seus hinos são as marchas-rancho, os sambas que falam de Amélia, a mulher de verdade, afirmam que a felicidade é como a pluma que o vento vai levando devagar, e falam da lata d’água na cabeça. Ora, senhores, isto é chorar.

Um dia foi a procissão da ressurreição, uma festiva procissão na madrugada, quando o sol surgia bem por trás do morro do cemitério, que na minha cidade marca o nascente. Vinha indecisa ainda a gloriosa claridade. Havia muito de alvacento na neblina grisalha como uma velhinha que vai á igreja de mantilha de tule nos cabelos. Ave, ave, Maria! era o que se ouvia saudação angélica das mais belas do mundo, mas cantada como? Bem, queria que ouvissem. Teria alguma coisa de angélico, muito pouco de canto e nada de alegria.

Já devem ter ouvido em outras procissões: vestida de branco ela apareceu; para mãe do Redentor, a Senhora Aparecida, coração santo tu reinarás, sem entusiasmo nenhum, sem calor, sem convicção, umas vozes esparsas e desafinadas, uns esperando que outros cantem, as vozes não só desentoadas como fora de compasso, e já ouviram por certo, ai! cantar o Hino do Congresso Eucarístico e o Hino do Expedicionário Brasileiro. E isto é cantar?!

Certa vez ouvi cantar a plenos pulmões uma canção entusiástica, de um modo radioso e contagiante, eram uns alemães, para os lados de Santo Amaro.

Temos que enfrentar essa desagradável realidade: somos um povo que não canta. Se um grupo em festa canta, é a voz roufenha do sexto chope, ou do terceiro conhaque. Na ida e na vinda de um piquenique, há algazarra e gritaria, não cantigas. Os caminhões que vêm do Pacaembu para o largo do Amendoim e do Maracanã para a praça Paris, carregados de torcedores aos brados de mais um, trazem gente que berra, mas não canta. Há quanto tempo, há quanto! não ouço mais uma cantiga de roda! Na rua até as moças, de cabelos soltos e vestido de cassa, cantando Terezinha de Jesus, vai à porta e vê quem é... e onde vai senhora condessa, venho de França onde nasci... Caipira canta? Não vê! Desafio, só depois do caco cheio de muita cachaça. Começa com pinga, acaba com facada. Isto é cantar?

Nunca tivemos uma canção nacional, que todos soubessem e todos cantassem. Em redor da mesa, no Ano Bom e no Natal, nos quintais, quando as crianças brincam, nas ruas quando as moças vão de braço dado às esquinas espiar se o amor já vem, nos passeios a pé pelos arredores, nos campos e nas praias. Nos serões familiares de algum tempo principiou a pegar a “casinha pequenina”. Depois foi a casa branca da serra e depois o luar do sertão, mas foi por pouco tempo e logo tudo se acabou. Não somos gente de cantar. Decerto nos faria bem.

E é por isso que me parece sábia essa determinação do governo e dos conselhos de educação. Aula de Canto. Aula de Cantiga. Ou melhor do que isso: Aula de Cantoria. Ensinar a criançada a cantar. Pô-las em pé, em volta de um piano, onde a professora acompanha alegremente, e fazê-las cantar. Não importa o que, não importa como. Todas juntas. Em uníssono, lavando a alma na cantiga, soltando as vozes como canário da terra ou um gaturamo. Porque o dia está quente e claro, porque é cedo, porque estão vivos, porque são brasileiros, porque são pequenos, porque enxugaram as costas da mão, ao chorar depois do “pito”, porque quem canta seus males espanta. Cantar. Seja a prenda minha, a valsa do Adeus ou o moleque bamba.

terça-feira, 30 de julho de 2013

Nossa linguagem musical

Ruth Guimarães

Foto de Botelho Netto
Que conheciam os índios? O sol, a noite, o rio, o macaco, a preá, a onça. Que queriam eles? Viver. Além do comer, do beber, do re­produzir-se, queriam também saber quem os tinha feito. Que faziam eles neste mundo.

Conforme Couto de Magalhães, a teogonia indígena se refere ao sol, Coaraci ou Guaraci, criador de todos os seres viventes. Jaci, a lua, mãe e esposa de Guaraci, e mãe de todas as coisas, venerada e festejada, senhora de ritos.

A floresta que era o seu sustento, refúgio, casa, céu, des­pensa, tugúrio, propriedade, quem a protegeria? E veio o Curupira, Caapora, duende espantoso, protetor das matas e dos bichos. E veio Anhangá, dono da caça dos matos, espírito separado, demoníaco, às ve­zes bom, às vezes mau. Poderoso.

Desde os tempos mais primários, mais selvagens, até um grego do quinto século, até um Heidegger ou um Sartre, desde o homem das ca­vernas ao camponês bretão, do habitante da palhoça amazônica ao ocu­pante das mansões do Morumbi, todos querem uma explicação para o que lhes acontece, sem o que ninguém poderá tolerar em certos momentos ne­gros esta negra vida. E aí está porque todos os contos ameríndios do Brasil são etiológicos e tentam explicar a cosmogonia ou a origem dos animais.

Os índios estão em nós, já o dissemos.

Diluídos na linguagem, por exemplo. Foram os falares indígenas que emprestaram à Língua Portuguesa, mais surda e mais martelada, a rica tonalidade brasileira, cantada, lenta, de vogais escandidas bem abertas e de sonoros nasalamentos. Isto na fonética. O vocabulário fi­cou milionário e original, de palavras nunca dantes conhecidas. Nomes de peixes, de plantas, de frutos, de animais: de répteis, principal­mente da grande variedade das cobras, dos quelônios, dos bichos de pena e pelo.

E os antropônimos?

E os topônimos?

E até na morfologia, apesar do seu extremo atraso e de serem os nossos indígenas um povo ágrafo, ficaram os sufixos e prefixos. Quem não conhece as fórmulas: mirim, guaçu, uçu, como em Imirim, água pequena, jararacuçu, jararaca grande; una como em boiúna, a cobra preta, graúna, pixuna.

Taiova, urucu, cambará, embaúva, sapucaia, tajá, caraguatá, imbê, taiuiá, suçuaiá, trapoeiraba, maracujá, sapoti, abacaxi, iguapé, tucum, pitanga, goiaba, jacaratiá, gerivá, taquari, ipecacuanha - são todos nomes indígenas de uso doméstico e cotidiano, na região. E ou­tros e outros.

E sanhaçu, sabiá, saracura, arara, anum, nhambu-xororó, mutum, guará, paca, tatu, cutia, preá, capivara, anta, jacaré.

Em que língua do mundo há um vocabulário de tal música?